FUSÃO DE AÇO E DE EMPRESAS.
Íntegra da Matéria editada pela revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios - Nº 214.
Durante décadas eles dividiram o mesmo mercado, disputaram a preferência dos clientes, eram concorrentes ferrenhos e alternaram a liderança num setor marcado pela guerra de preços. Há um ano, numa demonstração de maturidade, os sócios de três das principais empresas de beneficiamento de sucata de ferro e de aço do país decidiram unir suas forças. Eles deixaram para trás as diferenças pessoais, fundiram suas empresas em uma, maior e mais competitiva.
A nova empresa, RFR Reciclagem, nasceu de uma mudança no cenário nacional. As siderúrgicas, principais compradoras da sucata beneficiada, passaram a fundir a própria sucata e, de uma hora para a outra, deixaram de ser apenas clientes para assumir o papel de temidos concorrentes. Os sócios da RFR não tinham muitas saídas. “Somar forças foi o caminho que nós encontramos para garantir a sobrevivência de um negócio que atravessava várias gerações”, diz Vidal Cruz, 52 anos, um dos oito sócios da RFR. “Separados, não sobreviveríamos por mais cinco anos”.
Nascida da junção das empresas Realfer, da Fervitor e da Recimesa, todas da capital paulista, a RFR Reciclagem responde por 8% do mercado nacional. Processa cerca de 30.000 toneladas de sucata, já que o setor beneficiou em 2005, segundo o Sindicato do Comércio Atacadista de Sucata ferrosa e não ferrosa do Estado de São Paulo, 580.000 toneladas de aço e ferro por mês. Desse total, 520.000 foram negociadas com as usinas siderúrgicas e as demais com as fundições.
Ao criar uma nova empresa, os sócios dizem que reduziram custos, aumentaram o mix de produtos, ganharam escala e investiram na modernização das máquinas e da frota. Melhor do que isso, ergueram uma indústria equipada com o que há de mais moderno em “tecnologia para o ramo. Compraram, por exemplo, um sofisticado aparelho de medição do índice de radioatividade presente na sucata.”Nenhum caminhão carregado entra no pátio sem antes passar pelo detector”, afirma Cruz. “É uma questão de segurança”. Compraram também, uma imensa máquina, chamada de shredder, que mais parece uma engenhoca de filmes de ficção científica, para triturar a sucata bruta e garantir um produto final com um índice de purificação 22% superior ao oferecido pelo mercado. De fabricação alemã, a shredder custou 10 milhões de reais e tornou-se o diferencial competitivo da RFR.
Respeitando a cartilha da modernidade e da preservação do meio ambiente, a RFR, em um ano de operação, cresceu 20% em volume de sucata processada e faturou 120 milhões de reais. Além disso, conquistou a certificação ISO 9001 na gestão da qualidade e está a caminho da ISO 14.000, por se preocupar com o destino ecologicamente correto do material processado, do acondicionamento de resíduos industriais e de peças obsoletas. “É uma performance que, com nossas empresas independentes, seria impossível alcançar”, diz Marcos Fonseca, 34 anos, o caçula dos sócios. Segundo ele, a modernização, os ganhos de volume e a boa visibilidade no mercado foram alguns dos benefícios trazidos pela fusão.
COMO MANDA O FIGURINO – Ao contrário das grandes fusões empresariais, a criação da RFR reciclagem não levou meses. Os sócios afirmaram que bateram o martelo em menos de uma semana. Para os parceiros mais cautelosos, soava como um risco abrir mão de um negócio que ia bem – as três empresas eram reconhecidas pelo mercado – para começar tudo de novo. Mesmo assim, convenceram-se. “O cenário econômico apontava nessa direção e logo assimilamos a idéia da fusão para ganhar representatividade”, diz Cruz.
A agilidade na tomada da decisão não significa que o processo seria indolor. “Tínhamos laços emocionais fortes, porque as empresas carregavam histórias de família”, diz Cruz. O sócio Fonseca lembra que, para alguns, o que mais doeu foi abrir mão do nome de suas empresas, uma identidade que se confundia com os donos. A solução encontrada foi preservar as iniciais da três, RFR. “A emoção nesse momento pesa muito, assim como o fato de ter de dividir com o ex-concorrente uma empresa que você mesmo criou”. Diz Cruz.
Entre fechar as antigas empresas e iniciar a nova operação passaram-se 90 dias. A preparação envolveu a busca de um terreno de 50.000 metros quadrados no município de Guarulhos, na Grande são Paulo, capaz de acomodar a sede da empresa e a shredder que, todos concordavam, precisava ser comprada. Também envolveu a estruturação da frota de caminhões e da rede de coleta de sucata.
Segundo Cruz, desde o início ficou acordado que cada um deveria trazer para a RFR apenas o que tinha de melhor, fosse em máquinas, mão-de-obra ou processos de gestão. O acordo incluía “limpar a casa”: cada um deveria resolver seus próprios problemas antes da fusão. “Duas das empresas eram familiares, o que exigia uma depuração maior da divisão entre o negócio e as pessoas físicas, pois em muitos momentos eles se fundiam”, diz Cruz. Também foi preciso “zerar” dívidas de gratidão. Cruz, por exemplo, ofereceu a um de seus empregados, com mais de 20 anos de serviços prestados, um salário integral para ficar em casa até que alcançasse a aposentadoria. “Ele não tinha mais função na nova empresa, mas não seria justo colocá-lo na rua”, afirma. “Ele voltou à sua cidade e nós cumprimos o nosso papel”.
O QUE VOCÊ PODE APRENDER COM A RFR RECICLAGEM
. Um empresário não pode ter apego a sua empresa, como se ela fosse um filho, e deve estar preparado para negociá-la como qualquer produto;
. O mercado muda rapidamente e é fundamental estar atento;
. Clientes podem se tornar concorrentes;
. Concorrentes podem se tornar parceiros;
. Sócios têm que ter um papel definido, seja em cargos executivos ou no conselho;
. Cargos de presidente e de vice podem ser rotativos.
Uma das principais tarefas do grupo foi distribuir claramente as funções que cada um ocuparia no novo organograma. Decidiu-se que o investimento em capital seria proporcional ao tamanho de cada empresa, o que determinaria, também a participação societária. As cotas foram fixadas em toneladas processadas. Criou-se, também um modelo de gestão com cargos de presidente e vice-presidente rotativos: a cada dois anos, trocam-se os ocupantes das cadeiras. É uma boa solução para acomodar os talentos de todos os sócios. Dos oito empreendedores envolvidos – Marcos Sérgio Gonzáles, 49 anos, o presidente em exercício; Marcos Cruz, 45 anos, vice-presidente; Antonio Marcelo Fonseca, 36 anos; Vidal Cruz, 52 anos; Marcos Fonseca, 34 anos, Américo de Moraes Filho, 52 anos; Márcia Monteiro, 32 anos; e Márcia Gonzáles, 48 anos -, seis trabalham na empresa e dois integram o conselho de acionistas.
Ao descrever a trajetória da RFR Reciclagem tem-se a sensação de que o processo de fusão é simples. Mas os especialistas garantem que não, sobretudo quando se trata de pequena empresa. “Na maioria das vezes, o negócio é o espelho do dono, traz a história da família incrustada em cada negociação” afirma o consultor André Luiz silva, da Fomentar Gestão Empresarial. Segundo ele, é difícil dividir a sua bagagem empresarial com os demais.
Os sócios da RFR concordam: “Antes eu decidia que rumo daria à empresa, sem compartilhar as angústias e as conseqüências com ninguém”, diz Marcos Fonseca. “Hoje sou obrigado a prestar contas a cada 15 dias e a aceitar a opinião do conselho a cada passo mais importante”.Ele afirma que não é fácil. Porém, com diálogos abertos e a adoção de uma convivência baseada na confiança e na comunhão de propósitos, o fardo fica mais leve.
Para o consultor Alexandre Motonaga, professor de negociação e aspectos jurídicos da Escola de administração da Fundação Getúlio Vargas, os sócios da RFR respeitaram na prática o que diz a teoria, aumentando as chances de sobrevida do negócio (veja o quadro abaixo). “As fusões são o caminho mais rápido para ganhar fôlego e competitividade”, diz Montonaga. “Mas também são um atalho para se fechar as portas. “Isso porque, segundo o especialista, ao somarem forças, as expectativas de lucros e ganhos de mercado são muito altas e apenas 20% delas se concretizam. O que acaba gerando brigas e encerramento do negócio.
Os sócios da RFR Reciclagem sabem disso e redobram cuidados. Fazem questão de manter a empresa enxuta e de reinvestir o que ganham no próprio negócio. “Nesse mercado não há espaço para desperdícios ou luxos”, diz Cruz. É preciso enxergar mais à frente, descobrir novos fornecedores e agregar cada vez mais valor ao produto final, para conseguir melhores preços. “Os sócios garantem que a RFR treina seus 150 funcionários para aprimorar a qualidade e assegurar a pontualidade na retirada das caçambas em mais de 300 endereços, de indústrias automobilísticas ao ferro-velho da esquina”. Temos uma mina de ouro e precisamos cuidar dela muito bem” diz Cruz. “Afinal, somos uma peça importante na preservação da vida do planeta”.
OPERAÇÃO BEM-SUCEDIDA
Cuidados para quem deseja adotar a fusão de empresas como estratégia para crescer
. Procure trabalhar mais com a razão do que com a emoção. Vitórias e derrotas vividas no passado pertencem ao plano das lembranças e não devem interferir na gestão do novo negócio.
. Deixe a vaidade de lado. Você não é o único dono da verdade e nem o melhor empreendedor do planeta. Aprenda a ouvir as opiniões dos novos sócios, pois elas ajudarão a agregar valor ao negócio.
. Faça o exercício diário de compartilhar sua bagagem empreendedora com pessoas cujas experiências são diferentes das suas.
. Um Negócio que nasce baseado na transparência de valores e de processos de gestão tem muito mais chances de dar certo. Por isso, elabore um acordo de acionistas, incluindo o limite das participações de cada um, as regras de gestão da empresa, as retiradas financeiras e a possibilidade ou não da contratação de parentes.
. Divida as atribuições de cada sócio de acordo com as habilidades de cada um. Não é porque um dia a pessoa presidiu a própria empresa que essa será a sua melhor função.
. Supere as diferenças pessoais e dê opinião de forma a evitar brigas e a canalizar energias na direção do sucesso.
FIM.